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terça-feira, 6 de julho de 2010

O LAÇO DE FITA


O laço de fita

Não sabes, criança? 'Stou louco de amores...

Prendi meus afetos, formosa Pepita.

Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!

Não rias, prendi-me

Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas,

Nos negros cabelos da moça bonita,

Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,

Formoso enroscava-se

O laço de fita.


Meu ser, que voava nas luzes da festa,

Qual pássaro bravo, que os ares agita,

Eu vi de repente cativo, submisso

Rolar prisioneiro

Num laço de fita.

E agora enleada na tênue cadeia

Debalde minh'alma se embate, se irrita...

O braço, que rompe cadeias de ferro,

Não quebra teus elos,

Ó laço de fita!

Meu Deusl As falenas têm asas de opala,

Os astros se libram na plaga infinita.

Os anjos repousam nas penas brilhantes...

Mas tu... tens por asas

Um laço de fita.

Há pouco voavas na célere valsa,

Na valsa que anseia, que estua e palpita.

Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...

Beijava-te apenas...

Teu laço de fita.


Mas ai! findo o baile, despindo os adornos

N'alcova onde a vela ciosa... crepita,

Talvez da cadeia libertes as tranças

Mas eu... fico preso

No laço de fita.


Pois bem! Quando um dia na sombra do vale

Abrirem-me a cova... formosa Pepital

Ao menos arranca meus louros da fronte,

E dá-me por c'roa...

Teu laço de fita.



O poeta baiano Castro Alves não era só um revolucionário,mas,também,um poeta apaixonado e romântico.Amou e foi amado por belas mulheres como a atriz Eugênia Câmara.Esta poesia mostra o seu lado romanticamente infantil.






















domingo, 14 de março de 2010

A CRUZ DA ESTRADA




Tu que passas, descobre-te.


Ali dorme

O forte que morreu.


Alexandre Herculano


Invídeo quia quiescunt.

Lutero



Caminheiro que passas pela estrada,


Seguindo pelo rumo do sertão,


Quando vires a cruz abandonada,


Deixa-a em paz a dormir na solidão.




Que vale o ramo de alecrim cheiroso


Que lhe atiras nos braços ao passar?


Vais espantar o bando buliçoso


Das borboletas, que lá vão pousar.






É de um escravo humilde sepultura,


Foi-lhe a vida o velar de insónia atroz;


Deixa-o dormir no leito de verdura


Que o Senhor, dentre as relvas, lhe compôs.






Não precisa de ti. O gaturamo


Geme por ele à tarde no sertão;


E a juriti, do taquaral no ramo,


Povoa, soluçando, a solidão.






Entre os braços da Cruz a parasita,


Num abraço de flores, se prendeu;


Chora orvalhos a grama, que palpita,


Lhe acende o vaga lume o facho seu.






Quando à noite o silêncio habita as matas,


A sepultura fala a sós com Deus...


Prende-se a voz na boca das cascatas


E as asas de ouro aos astros lá nos céus.






Caminheiro! do escravo desgraçado


O sono agora mesmo começou!


Não lhe toques no leito de noivado,


Há pouco a liberdade o desposou.
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