Seguidores

Mostrando postagens com marcador um dos mais belos versos da poesia brasileira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador um dos mais belos versos da poesia brasileira. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de maio de 2010

VERSOS DE FERNANDO PESSOA


Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo.
E ao beber nem recorda
que já bebeu na vida;
Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos,ou heras,ou rosas volúteis;
Ele sabe que a vida
passa por ele e tanto
Corta à flor como a ele
De Átropos a tesoura.

Mas,ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
Que o seu sabor orgíaco
Apague o gosto às horas,
Como a uma voz chorando
O passar das bacantes.

E ele espera,contente quase e bebedor tranqüilo,
E apenas desejando
Num desejo mal tido
Que a abominável onda
O não molhe tão cedo.

IMG:Busca Google

domingo, 14 de março de 2010

A CRUZ DA ESTRADA




Tu que passas, descobre-te.


Ali dorme

O forte que morreu.


Alexandre Herculano


Invídeo quia quiescunt.

Lutero



Caminheiro que passas pela estrada,


Seguindo pelo rumo do sertão,


Quando vires a cruz abandonada,


Deixa-a em paz a dormir na solidão.




Que vale o ramo de alecrim cheiroso


Que lhe atiras nos braços ao passar?


Vais espantar o bando buliçoso


Das borboletas, que lá vão pousar.






É de um escravo humilde sepultura,


Foi-lhe a vida o velar de insónia atroz;


Deixa-o dormir no leito de verdura


Que o Senhor, dentre as relvas, lhe compôs.






Não precisa de ti. O gaturamo


Geme por ele à tarde no sertão;


E a juriti, do taquaral no ramo,


Povoa, soluçando, a solidão.






Entre os braços da Cruz a parasita,


Num abraço de flores, se prendeu;


Chora orvalhos a grama, que palpita,


Lhe acende o vaga lume o facho seu.






Quando à noite o silêncio habita as matas,


A sepultura fala a sós com Deus...


Prende-se a voz na boca das cascatas


E as asas de ouro aos astros lá nos céus.






Caminheiro! do escravo desgraçado


O sono agora mesmo começou!


Não lhe toques no leito de noivado,


Há pouco a liberdade o desposou.
.