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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

TEMPO AZUL DE ITAPARICA



Por conta da festa dos 70 anos do escritor João Ubaldo Ribeiro,rumei para Itaparica.
Fazia um bocado de tempo que não ia lá ,gozar daquele mar verde – azul,beber da água da “Fonte da Bica”,(êeh,água fina,faz velha virar menina) é o que dizem e pude comprovar,pois,voltei ainda mais energizada.
Ir sozinha seria um pecado.Como dividir experiências,comentar fatos,relembrar outros,fazer passeios socráticos pelo calçadão,rente ao mar?

Convidei  Ivone Alves,Soll ,uma amiga querida, poetisa,boa ouvinte  e disposta a compartilhar todas as minhas loucuras,como caminhar à toa  no pico do meio – dia e ficar até altas horas falando de Literatura na imensa varanda do hotel,envolvidas pela paisagem  marinha,tão tranqüila e repousante.

Eu comentei com ela-:Impossível morar em Itaparica e não escrever um livro,pois ,aqui,tudo é poesia.”
Visitamos a Biblioteca que fica numa  rua sossegada ,abrigada  numa casa risonha e clara,rodeada de verde e sol.Passeamos no calçadão rente ao mar,almoçamos na Marina,um peixe gostoso e barato ,servidas pela Marli,uma garota de fino trato.

Itaparica faz parte da história da Bahia ,pois,teve uma participação relevante na Guerra da Independência.
Os holandeses chegaram a construir  a Fortaleza de São Lourenço que permanece até hoje.


segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O CARURU



Ontem foi dia dos Santos Gêmeos, dia de comer caruru.


O quiabo é uma planta africana chamada calulu, daí o nome do famoso prato. Desde cedo, as donas de casa alvoroçadas, cortando os quiabos, (depois de bem lavados e enxutos numa toalha limpa, para secar a baba.) triturando as castanhas, amendoins, cebolas, gengibre, camarões secos, tudo para fazer a comida ao gosto dos ibejis. depois de triturado no pilão, junta-se o quiabo cortadinho bem miúdo e põe-se um pouco do azeite; não se coloca água; quiabos, temperos e azeite postos nas panelas, mexe-se constantemente para não pegar e vai-se acrescentando o dendê, quando necessário. Não esquecer o sal.

Pronto o caruru, arruma-se a mesa, com a separação ritual: o caruru dos meninos, seguindo todos os preceitos; o dos grandes, á vontade. caruru, vatapá, efó, arroz de hauçá, cana cortadinha, farofa de azeite, abará, acarajé, pipoca branca, feijão fradinho, banana frita, cocada puxa, o banquete do santo. a bebida de Cosme é o aluá de abacaxi, feito com a infusão das folhas da fruta, depois de bem lavadas e macerando de um dia para o outro.

então é só degustar essas maravilhas, mas, primeiro que tudo se deve alimentar os meninos: coloca-se uma porção de cada iguaria numa "quartinha” de barro e agradece os benefcios recebidos e/ou pedem-se outros. Deixa-se a comida por três dias, depois recolhe-se a quartinha e joga-se num matinho verde.

Pode-se oferecer a comida dos santos todos os meses do ano, exceto novembro, mes dos eguns.

A mesa dos meninos é um caso á parte, como ensinou Maria de S. Pedro, quituteira de primeira, dona do restaurante que tinha o seu nome, no Mercado Modelo. Dizia D. Maria: Todos os pratos da festa devem estar sob uma pequena mesa: caruru, pipocas, amendoim, farofa de azeite, cana cortadinha, banana frita, arroz branco, abará, abóboras, acarajé, milho branco, coco cortado em pequenos pedaços, galhinha de molho pardo e ovo cozido. Enchia-se uma bacia grande que se punha no chão bastante limpo e forrado. Chamava-se os sete meninos mais jovens; as crianças, entre sete e oito anos abaixavam-se em volta da bacia; As crianças mais velhas e os adultos batiam palmas ritmadas; D. Maria chamava -Vem cá, vem cá, Dois - Dois. Os pequeninos, simbolicamente, mantinham as mãozinhas por cerca de um minuto sobre o caruru, começando, a seguir, todos juntos a jantar. Todos cantam com alegria e entusiasmo, mantendo o ritmo das palmas: - Eu te dou de comê, Dois - Dois! Eu te dou de bebê, Dois - Dois; os versos são cantados sete vezes, depois, passa-se para outros:

S. Cosme mandou fazer

Uma camisinha azul.

No dia da festa dele

S. Cosme quer caruru.

Vadeia Cosme, vadeia

Vadeia, Cosme, na areia!

Vadeia, Cosme, vadeia,

Vadeia, Cosme, na areia!

Eu tenho pai

Que me dá de comê.

Eu tenho mãe

Que me dá de bebê.

Comido o alimento santo,

Os meninos esperam o sinal para levantar as mãos. Aí começa a festa dos grandes; Voltam às palmas e os cantos: Louvado seja, ó meu Deus

Que Cosme e Damião comeu.

Repete-se três vezes esses versinhos. Depois, os sete meninos e a dona da casa carregam a bacia para dentro da casa.



quinta-feira, 29 de julho de 2010

ENTREVISTA DA ESCRITORA MIRIAM SALES AO "MAIS BAHIA"


23/07/10
A escritora Miriam Sales conta sobre o livro "A Bahia de Outrora"


O Mais Letras dessa semana indica o livro A Bahia de Outrora. Para falar sobre a obra, conversamos com a autora Miriam Sales (foto). A escritora é uma ativista em defesa da literatura baiana e autora dos Contos e Causos e Maktub, além de centenas de crônicas publicadas na internet e em três blogs que ela mantém com atualizações diárias. Na nossa entrevista ela conta que a obra foi benéfica por lhe trazer grandes lembranças e muito mais. Confira!

Por Fabiana Oliva

MB - Do que se trata o livro A Bahia de Outrora?

MS - É um livro memorialista, porém, cabe no gosto do público de qualquer extrato social ou intelectual. Em crônicas curtas e bem humoradas, retrata uma Bahia do passado, revivendo seus costumes, tradições e crenças.

MB - Qual é o objetivo da obra?

MS - Mostrar às novas gerações como era essa Bahia patriarcal e provinciana, onde todos se conheciam, uma Bahia cordial, apesar das diferenças sociais que sempre estiveram presentes nessa nossa sociedade estratificada. Falo das famílias ricas e das lavadeiras do Abaeté; da cultura e tradição negra, influindo seriamente no nosso cotidiano e ajudando a formar gerações, como a Mãe Preta, homenageada no capítulo final.

MB - Como surgiu a idéia de escrevê-lo?

MS - Foi uma idéia antiga. Apaixonada pela Bahia queria deixar registrado seu passado nas páginas de um livro para que nunca fosse esquecido.

MB - Como foi o processo de construção da obra?

MS - Esse processo custou-me cinco anos de trabalho:pesquisas,conversas com mulheres mais velhas,sinhás e,pretas velhas,com o povo do santo,leituras de livros antigos,e até velhos diários bem escondidos debaixo dos lençóis de cetim.Confissões de matronas respeitáveis para quem a Bahia de hoje seria pior que Sodoma e Gomorra juntas.

MB - Que lembranças esse livro trouxe da sua vida?

MS - Ah, muitas!Minha infância e adolescência, as festas de largo, o Sábado do Bonfim, as viagens de avião, usando luvas e chapéus, as visitas, a culinária, os namoros no portão, os chás nas Duas Américas, as viúvas e a negra do mingau. Os saudosistas vão adorar e os mais jovens vão morrer de rir.

MB - Como a Sra. analisa essa nova geração de jovens viciados no mundo virtual?

MS - A Internet é como a eletricidade; tanto ilumina como mata. O mundo ficou bem menor e as pessoas se encontram mais e se conhecem melhor virtualmente. Mas de uma forma muito interessante, pois, através da palavra digitada a gente acaba conhecendo melhor a essência da pessoa que vai além da sua aparência. Existem riscos, por isso, precisamos ter cuidado.

MB - A Sra. acha que o livro impresso vai acabar daqui uns tempos devido a chegada do livro digital?

MS - Espero que não! Para minha geração o cheiro, a cor, o volume do livro que a gente segura com carinho é imbatível. Entretanto, que venham os digitais, mais práticos e armazenando milhares de informações. Mas, note a TV não aposentou o cinema e o jornal digital ainda não substituiu o impresso.

MB - É fato sabido que várias gerações têm demonstrado desinteresse pela leitura. Na sua opinião qual é a melhor maneira de estimular o hábito de ler?

MS - A leitura jamais deverá ser forçada. Literatura não é disciplina, é indisciplina, devemos estimular o aluno a descobrir caminhos, abrir as portas da fantasia e imaginação. Toda obra literária contém os elementos primários da estória humana:amor,ódio,gozo,sofrimento,ciúme,paixão. Mas, o ciúme de Bentinho não é o mesmo do Otelo. Inútil obrigar as novas gerações a ler os clássicos. Eles chegarão lá através dos gibis, porque não? É uma longa caminhada.

Obra: A Bahia de Outrora

Autora: Miriam de Sales Oliveira

Editora: Via Litterarum

Preço sugerido: R$20,00